Apenas algumas linhas sobre os recentes acontecimentos da Educação no Rio Grande do Sul. O resultado das provas do concurso do magistério, e o índice de reprovação dos alunos que foram divulgados.
Primeiro o concurso. Bem, já não é segredo que o índice de reprovação foi bastante alto, gerando um sem número de reclamações que vão de plausíveis a absurdas. As plausíveis apontam uma prova mais complexa, que exigia do candidato um grau de atenção muito maior, dando pouca margem para “chutes certeiros”. Era uma prova densa, não difícil.
E o fator densidade talvez tenha sido o principal fator de reprovação. Era uma prova de conhecimentos interligados, que atendiam já as instruções de um novo currículo – muito acertado, aliás, com o atual material de estudos para provas de ingresso no Ensino Superior. Além do mais, as provas possuíam claramente uma filosofia educacional, pautada quase que exclusivamente em Paulo Freire e sua proposta pedagógica, com apenas uma ou duas questões pedagógicas que lembravam o ensino sistêmico de Morin.
Não foi em momento algum uma avaliação baseada na “decoreba”, em que os candidatos precisariam decorar os autores que estavam listados na bibliografia. Talvez esse seja o maior fator decepcionante para quem estudou, se dedicou aos autores um a um, pormenorizando os conteúdos. O modelo de prova não exigia isso, exigia outro tipo de conhecimento, baseado em uma filosofia educacional, talvez até de engajamento político de classe, que perpassavam todas as questões.
Com isso se expõe um problema: os professores estão tão atrelados à lógica da memorização de conteúdos com os seus alunos e, da mesma forma, já estão completamente emaranhados dentro dessa perspectiva. Mas isso é uma grande questão, sem mocinhos ou vilões…
É uma explicação plausível criticar o modelo de prova. Ao mesmo tempo é preciso entender que esse é o modelo daqui para diante, o que considero bem mais justo e coerente com a contemporaneidade.
As explicações não plausíveis gritam um suposto “golpe” do atual governador. Interessado em não contratar tantos professores teria feito uma prova dificílima. Teoria tão absurda que caiu por terra quando ontem mesmo o secretário de educação já anunciou um novo concurso para preencher a alta demanda.
Segundo, reprovações. Nessa semana foi divulgado que o Estado do Rio Grande do Sul é o que mais reprova, no ano de 2011 foi um em cada cinco alunos. Isso no que tange ao Ensino Médio, e assim os dados ficam com um índice de 20,7% de reprovação enquanto no Brasil é de pouco mais de 13%. Isso assusta? Eles querem dizer que sim!
O Secretário de Educação, José Clóvis, de forma muito atrapalhada, diga-se de passagem, partiu com aquele discurso de “não podemos culpar só os alunos”, e um decano da educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Fernando Becker, foi entrevistado dizendo que “temos uma formação didática relapsa” dos professores na universidade.
O Secretário atribuiu a culpa aos professores. O decano atribuiu a culpa aos professores. E assim o mundo segue, nós, professores, praticamente os responsáveis pelos problemas mundiais.
O que passa ao fundo disso: números. Aluno aprovado é sinônimo de qualidade de educação e verba. É essa a lógica da primeira fala. E a segunda, do professor, por favor, didática é o que mais há nos cursos de licenciatura no Brasil – muitas vezes suplantando os próprios conteúdos específicos que devem também atender.
A reprovação é uma necessidade existente dentro do processo de ensino-aprendizagem. A questão é como tratar ela: ou segue o velho modelo e faz dos alunos repetentes um estigma, os deixando em “salas de repetentes”, ou então propor uma estrutura pedagógica diferenciada para esse núcleo de alunos que não conseguiram avançar por N motivos, e que devem ser detectados pelos professores e orientadores pedagógicos.
Culpar tão somente os professores é colocar um peso muito maior do que realmente lhe cabe. Obviamente existem profissionais duvidosos, assim como em qualquer profissão, mas deixar nas mãos dos docentes tão somente esse “problema” é injusto demais.