Letras da Fronteira: Lembranças do uniforme escolar – la tunica y la moña

Alexander Severo Cordoba

Visitando a minha fronteira, numa dessas idas anti stress, passei perto da Escuela publica onde estudei todo o ensino fundamental, que no Uruguai chamamos de Primaria. Me acordé de muchos momentos divinos da minha infância, os flashbacks vêm tudo junto! Claro, vou tentar fragmentá-los e compartilhar com vocês.

Um dia passei pela escola de carro, daí comecei a recordar quando mi padre nos levava mi hermana y yo, a la escuela de carro. Nós dois de uniforme… vestindo a tradicional tunica y moña que são pilchas que fazem parte do uniforme escolar uruguaio.

Era lindo ver toda a gurizada vestida de uniforme branco, a tunica escolar, com aquela moña azul, que era sujetada en la tunica por un alfiler de gancho, iluminada pela luz do sol! Claro, tudo tem seu lado malo, no inverno era cruel, pois além de despertarnos temprano para ir a la escuela tínhamos que, diariamente, vestir por cima da roupa convencional a gloriosa tunica! … e logo outra campera por que hacia mucho frio!

E até as meastras usam uma tunica blanca assim como la dirección de la escuela. Na minha época, o uso dessa vestimenta oficial era obrigatório;  creio que é ainda!

Só sei que até hoje não sei fazer a tal moña, pois era mi madre que fazia a moña e nós deixávamos pronta para usá-la toda a semana … Essa moña, ou melhor, um laço de fita azul, que tínhamos armar una moña … bah … era difícil fazê-lo! Será que a maioria das crianças consegue fazer a moña? …

Por outro lado, o uso do tal uniforme tem seu sentido positivo, ele nos faz desenvolver a capacidade de ter disciplina! Claro, aquilo era rotineiro, todos os dias – de Segunda a Sexta – tínhamos acordar bem cedo e além de fazer todas as necessidades básicas, devíamos vestir a tunica e colocar a moña!

Editorial: Greve na/da FURG

Quando vejo alguns manifestantes da greve dos estudantes da FURG me lembro imediatamente de alguns filmes que passam na Sessão da Tarde cuja temática são crianças presas no tempo… Esse filme se repete todo ano, e todos anos as crianças estão lá, nunca virando gente grande…

Sobre esse assunto, o editorial não tem mais nada a acrescentar depois desses dois textos:

Memórias do Chico: Quem tem força

Gotas de ácido: Estudantes da FURG entram em greve

Under the red Sky

Under the red sky – 1990

Nada como ser surpreendido. Dos discos da década de 1990 lançados por Bob Dylan apenas Time Out of Mind merece ser colocado no panteão de “clássico”, visto que foi um período nebuloso de desencontros sonoros depois de uma segunda metade da década de 1980 quase constrangedora.

Claro que alguns resquícios daquela década lotada de artifícios sonoros – o demônio dos sintetizadores – ainda persistem, mas tudo funciona de forma bem menos pesada, por exemplo, que um Empire Burlesque. O encanto do disco está em ser moderno no bom sentido, em alcançar um contato de artista conectado com a cena pop do momento, se utilizando disso para qualificá-la. Bons tempos de Bringing it all back home…

As letras circundam tanto o universo das metáforas (a faixa título) como também algumas brincadeiras como 2X2, ou um desfile de música pop anos 90 com Unbelievable acompanhado do órgão furiosos de Al Kooper. Aliás, vamos às participações, pois talvez esse seja o disco com o maior número de “gente fina elegante e sincera” colaborando com o cantautor em questão.

Começamos com o já citado Al Kooper, nada mais nada menos que o cara que ajudou a criar Like a Rolling Stones. Precisa falar mais? Talvez, talvez você precise escutar Handy Dandy para escutar uma introdução familiar…

Outro que dá as caras é o amigo de longa data George Harrison tocando uma guitarrinha calminha da silva. Para surpresa de todos, e confirmando a pegada pop do disco, Elton John está ali no piano em 2X2, assim como o guitarrista Slash acaba por tornar a música que abre o disco apenas aceitável (é a mais fraca do disco).

Mas tem mais, e tem mais um brasileiro, Paulinho da Costa na percussão em quatro canções. Por fim, David Crosby, um dos sujeitos que compôs o Crosby, Still, Nash e Young, bem como o The Byrds. Com todo esse clube de amigos o resultado saiu

Um disco em tempo de descoberta.  Um disco que ainda vai tocar muito no radinho.

Um livro para chamar de seu ou livre e espontânea pressão

O dia 12 de junho vem chegando de mansinho, e assim como quem não quer nada ele se encaixará em uma terça feira sem graça. E mesmo que pedras de granito impeçam maiores aquisições, como diz um antigo amigo meu, “a tentiada é livre”. Vai que acontece… Por isso, a listagem desses 4 livros que o Matuto está louco para ler, ou louco para ganhar:

R$ 49,90

Jed Martin, protagonista deste romance, é um artista francês que se torna famoso por reproduções de mapas rodoviários e por quadros retratando pessoas no exercício de suas profissões – entre elas, um famoso e polêmico escritor. Por mais que tenha sucesso em sua carreira, Jed não consegue se relacionar com as pessoas que realmente importam para ele – seu pai e a bela russa Olga. O único acontecimento capaz de tirar a vida de Jed de seu curso é um assassinato brutal, que ele ajudará a desvendar e que o marcará até o fim da vida. Ok, essa é a sinopse rasteira da livraria cultura, agora acrescente aí que o autor é Michel Houellebecq, daí sai da frente

R$ 49,90

Personagens históricos em uma trama na qual se desenrola a história de complôs, enganos, falsificações e assassinatos, em que encontramos o jovem médico Sigmund Freud (que prescreve terapias à base de hipnose e cocaína), o escritor Ippolito Nievo, judeus que querem dominar o mundo, uma satanista, missas negras, os documentos falsos do caso Dreyfus, jesuítas que conspiram contra maçons, Garibaldi e a formação dos Protocolos dos Sábios de Sião. A única figura inventada nesse romance é o protagonista Simone Simonini, embora o autor defenda que basta falar de algo para esse algo passar a existir. Só em pensar em ler algo no estilo de O Nome da Rosa já arrepia…

R$ 42,90

“Os imperfeccionistas” narra a cada capítulo a história de um personagem envolvido com um jornal internacional sediado em Roma, o fator que une todas essas pessoas. E, ao final de cada história, é mostrada uma parte da trajetória do próprio jornal, já em decadência. Curiosidade é a palavra de ordem.

 

R$ 39,90

Com vontade imensa de ser pai, o pescador Crisóstomo, um homem de quarenta anos, conhece o órfão Camilo, que um dia aparece em sua traineira. Ao redor dos dois, outros personagens testemunham a invenção e construção de uma família em vinte capítulos. Valter Hugo Mãe, ao falar de uma aldeia rural e dos sonhos anulados de quem vive nela, atravessa temas como solidão, preconceitos, vontades reprimidas, amor e compaixão. Depois de muito Saramago, Lobo Antunes e Sophia de Mello Breyner, um pouco mais de literatura portuguesa para o inverno que já vai chegar.

Concurso & Reprovação escolar

Apenas algumas linhas sobre os recentes acontecimentos da Educação no Rio Grande do Sul. O resultado das provas do concurso do magistério, e o índice de reprovação dos alunos que foram divulgados.

Primeiro o concurso. Bem, já não é segredo que o índice de reprovação foi bastante alto, gerando um sem número de reclamações que vão de plausíveis a absurdas. As plausíveis apontam uma prova mais complexa, que exigia do candidato um grau de atenção muito maior, dando pouca margem para “chutes certeiros”. Era uma prova densa, não difícil.

E o fator densidade talvez tenha sido o principal fator de reprovação. Era uma prova de conhecimentos interligados, que atendiam já as instruções de um novo currículo – muito acertado, aliás, com o atual material de estudos para provas de ingresso no Ensino Superior. Além do mais, as provas possuíam claramente uma filosofia educacional, pautada quase que exclusivamente em Paulo Freire e sua proposta pedagógica, com apenas uma ou duas questões pedagógicas que lembravam o ensino sistêmico de Morin.

Não foi em momento algum uma avaliação baseada na “decoreba”, em que os candidatos precisariam decorar os autores que estavam listados na bibliografia. Talvez esse seja o maior fator decepcionante para quem estudou, se dedicou aos autores um a um, pormenorizando os conteúdos. O modelo de prova não exigia isso, exigia outro tipo de conhecimento, baseado em uma filosofia educacional, talvez até de engajamento político de classe, que perpassavam todas as questões.

Com isso se expõe um problema: os professores estão tão atrelados à lógica da memorização de conteúdos com os seus alunos e, da mesma forma, já estão completamente emaranhados dentro dessa perspectiva. Mas isso é uma grande questão, sem mocinhos ou vilões…

É uma explicação plausível criticar o modelo de prova. Ao mesmo tempo é preciso entender que esse é o modelo daqui para diante, o que considero bem mais justo e coerente com a contemporaneidade.

As explicações não plausíveis gritam um suposto “golpe” do atual governador. Interessado em não contratar tantos professores teria feito uma prova dificílima. Teoria tão absurda que caiu por terra quando ontem mesmo o secretário de educação já anunciou um novo concurso para preencher a alta demanda.

Segundo, reprovações. Nessa semana foi divulgado que o Estado do Rio Grande do Sul é o que mais reprova, no ano de 2011 foi um em cada cinco alunos. Isso no que tange ao Ensino Médio, e assim os dados ficam com um índice de 20,7% de reprovação enquanto no Brasil é de pouco mais de 13%. Isso assusta? Eles querem dizer que sim!

O Secretário de Educação, José Clóvis, de forma muito atrapalhada, diga-se de passagem, partiu com aquele discurso de “não podemos culpar só os alunos”, e um decano da educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Fernando Becker, foi entrevistado dizendo que “temos uma formação didática relapsa” dos professores na universidade.

O Secretário atribuiu a culpa aos professores. O decano atribuiu a culpa aos professores. E assim o mundo segue, nós, professores, praticamente os responsáveis pelos problemas mundiais.

O que passa ao fundo disso: números. Aluno aprovado é sinônimo de qualidade de educação e verba. É essa a lógica da primeira fala. E a segunda, do professor, por favor, didática é o que mais há nos cursos de licenciatura no Brasil – muitas vezes suplantando os próprios conteúdos específicos que devem também atender.

A reprovação é uma necessidade existente dentro do processo de ensino-aprendizagem. A questão é como tratar ela: ou segue o velho modelo e faz dos alunos repetentes um estigma, os deixando em “salas de repetentes”, ou então propor uma estrutura pedagógica diferenciada para esse núcleo de alunos que não conseguiram avançar por N motivos, e que devem ser detectados pelos professores e orientadores pedagógicos.

Culpar tão somente os professores é colocar um peso muito maior do que realmente lhe cabe. Obviamente existem profissionais duvidosos, assim como em qualquer profissão, mas deixar nas mãos dos docentes tão somente esse “problema” é injusto demais.

Villa Sequeira: a defesa

Beatriz Thiesen, Maria Luiza Martini (Lulu e Orientª), Susana Bleil e M. Eunice Maciel

Ontem foi um dia especial para um grupo de pessoas, não para todo o universo, mas apenas para aqueles que viram uma praia ser transportada para a capital sulina. A Villa Sequeira já perambulava por textos, e ontem ela ganhou uma formatação final enquanto apresentação e “defesa” junto a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

Sim, ela foi “defendida” – não que sofresse ataques – depois de dois anos de escrita e seis anos (no total) de pesquisa sobre. Um ciclo se fechou, uma relação específica entre escritor e escrito alcançou um limite imposto pela necessidade da vida burocrática.

Mas não se enganem, ela voltará! Dentro de pouco tempo talvez ela até se transforme em Balneário Cassino…

PS1: Obrigado do Chico Cougo pelas palavras escritas ontem

PS2: Algumas línguas ferinas deram conta de informar que foi detectado um processo avançado de calvice pós-mestrado. Nada foi confirmado. 

PS3: Muito obrigado aos presentes. Todos, a sua maneira, fizeram parte do processo. 

PS4: Nunca coma uma torrada americana na Lancheria Estação 40 da rodoviária de Porto Alegre. Pode ser fatal para hipertensão. 

Simple Twist of fate: proibido para casais apaixonados

É impossível escolher uma entre tantas mil músicas do repertório de Bob Dylan para ser “a preferida”. Assim, a preferida é sempre uma “fase”, ou seja, aquela música específica que lhe prende por um tempo e é repetida constantemente no radinho de pilha.

A primeira, claro que não poderia deixar de ser, foi Like a rolling Stone, seguida de Hurricane e Maggie’s Farm. Tudo bastante óbvio, bastante “introdutório” para alguém com menos de 15 anos e já bastante ocupado em ouvir esse sujeitinho do interior estadunidense.

Things have changed foi ouvida a exaustão anos atrás. Talvez exaustão nem fosse a palavra adequada, mas vá lá… Recentemente To be alone with you embalou muitas tardes de escritas sobre praias e banhos de mar, da mesma forma Ballad of a thin man voltou com tudo no repertório pessoal. Graças a pegada assustadora do show de Dylan e sua maestria em tornar algo perfeito em um produto ainda mais qualificado.

Mas faz coisa de duas semanas uma canção assaltou o ouvido: Simple twist of fate. Incluída em seu disco mais sangrento, perdão pelo trocadilho canalha, a canção é um atestado da dor da desilusão de um homem por uma mulher que não correspondeu ao seu amor. Aliás, uma espécie de crônica da morte anunciada.

Conhecemos o início da relação, a primeira simples virada do destino. Logo a relação é consumada em um hotel com neon marcante, chega a segunda simples virada do destino. O dia chega, o som de um saxafone também preencheu a noite, mas eis que chega o dia ele está solitário na cama. Mais simples viradas do destino. Agora fatal virada.

Ele a persegue pelas noite seguintes, por algum cais de porto em que trabalha – sim, trabalha – a procura de outros marinheiros. Eis que na última estrofe ele lança um grupo de versos viscerais:

 As pessoas me dizem que é pecado
Saber e sentir de modo exagerado.
Que ela era minha alma gêmea, tenho acreditado,
mas, perdi essa aliança e a era.
Ela nasceu na primavera, mas, eu nasci tarde demais
Culpem-se estas simples guinadas fatais.

A letra é de uma sensibilidade em mostrar um sujeito completamente entregue ao amor não correspondido, por motivos que parecem óbvios para quem o acompanha de longe, mas que para o apaixonado são invisíveis.  Bob Dylan em toda sua desilusão, amargura, em um fundo de poço que fez do disco Blood on the tracks um de seus álbuns mais aplaudidos e que deveria ter o selo: “proibido para jovens apaixonados”.